terça-feira, 9 de novembro de 2010

Viver para Vencer


Um excelente documentário inglês ajuda a demonstrar por que chegou a hora de parar de explicar Ayrton Senna por meio de sua morte

JFK, John Fitzgerald Kennedy, foi o mais jovem presidente americano, eleito um dos grandes personagens políticos de seu país, católico em uma nação de maioria protestante, contraponto perfeito à gerontocracia soviética personificada em Nikita Kruschev, e tinha ao lado uma primeira-dama fascinante. Mas, quando se fala em JFK em primeiro plano, sempre aparecem os eventos do dia 22 de novembro de 1963, quando ele foi assassinado, em Dallas. Francisco Alves, Carlos Gardel, Jim Morrison, Patsy Cline, os Mamonas Assassinas, Kurt Cobain e tantos outros artistas de todas as eras tiveram a imagem, por décadas, atrelada às circustâncias trágicas de sua morte. Está-se fazendo a mesma coisa com Ayrton Senna. Chega, Injustamente. A carreira do talvez maior piloto de Fórmula 1 de todos os tempos é uma celebração de vida na busca da perfeição, na adesão aos mais altos padrões de segurança nas pistas, na intimidade com a ciência dos motores e da eletrônica embarcada. O encontro com a morte na curva Tamburello, no circuito de Ímola, na Itália, em 1º de maio de 1994, não foi a hora da verdade para um piloto temerário que preparou a si mesmo e ao mundo para o momento de purificação, sublimação e purgação. A morte de Senna foi acidente, um acontecimento casual, fortuito, inesperado - evitável.

O documentário inglês Senna - O brasileiro, o Herói, o Campeão, dirigido por Assif Kapadia com estreia prevista para 12 de novembro em 120 salas, escapa da moldura de explicar o ídolo pela sua morte. Mas não totalmente.A fita se deixa encantar pelo "viva velozmente e mora cedo", na frase (incompleta) dita pelo ator John Derek no filme O Crime Não Compensa, de 1949. Incompleta sim, pois ela continua: "...e deixe um belo cadáver". O rosto de Senna ficou monstruosamente desfigurado pelo inchaço do cérebro, atingido pela barra de direção quebrada no acidente. O documentário de Kapadia exibe os elementos necessários para desmontar a tese absurda de que Senna tocava sempre além dos limites, buscando a morte conceito pelo qual se enamora espiritualmente. Não. "O Ayrton tem um pequeno problema: pensa que não pode se matar", diz a meio caminho do documetário o francês Alain Prost, tetracampeão do mundo, o arqui-inimigo que duelou com o brasileiro no fim dos anos 80. Senna responde, olhos baixos, o ríctus típico da introspecção que parecia timidez, mas não era: "O fato de eu ter fé em Deus não quer dizer que eu seja imune. Tenho tanto medo quanto qualquer outra pessoa de me machucar".

Em uma das cenas, Senna contra-ataca com irritação o grande ex-campeão Jackie Stewart, o "escocês voador", que trabalhava para um emissora de televisão. Stewart embute em uma pergunta a acusação de que Senna deixava seu carro esbarrar demais nos bólidos dos adversários. "Você é um piloto experiente, deveria saber que isso só ocorre porque estamos sempre querendo vencer", retruca Senna, indignado. O brasileiro foi o maior recordista de pole positions até seu recorde cair, pelas mãos do alemão Michael Schumacher. Senna era obcecado por sair na frente. Não apenas para aumentar suas chances de ganhar as corridas. Dizia Senna: "Correr sozinho lá na frente é sempre mais seguro".

Com vasto material cedido pela família de Senna, e por Bernie Ecclestone, o mandachuva dos direitos de televisão das provas, o diretor Kapadia comprometeu-se a não fazer um documentário sobre os três últimos dias de vida do piloto. "Seria interessante, mas muito óbvio", diz o roteirista Manish Pandey. "Teríamos as imagens de sexta-feira, sábado e domingo e provavelmente usaríamos um flashback para explicar por que o personagem está ali. Faria isso com entrevistas entremeadas, e certamente o filme ficaria muito forte." Desse ponto de vista, as cenas iniciais, com o Grande Prêmio de Mônaco de 1984, debaixo de chuva, na pequena escuderia Toleman, são proféticas e têm mais valor explicativo da carreira do personangem do que a escapada fatal da Williams na curva Tamburello. Sob a chuva, nas ruas do princiapado na "corrida mais nobre da F1", Ayrton Senna parecia apenas mais un novato impávido disposto a qualquer loucura para ser notado. "Mais um Pryce", desdenhou o esnobe belga diretor de prova e ex-piloto de F1 Jacky Ickx, referindo-se ao galês Tom Pryce, um alucinado especialista em pistas molhadas, terror dos veteranos, que disputou quatro temporadas e morreu ao atropelar um fiscal de corrida em 1977 no GP da África do Sul. Ao volante da Toleman, usando um colete ortopédico para tornar suportáveis as dores nas costas produzidas pela instabilidade notória do carro, não estava mais um Tom Pryce, mas um piloto virtuoso, calculista, concentrado, estudioso e predestinado, um sátiro moderno, meio homem, meio máquina - Ayrton Senna da Silva, nome que marcaria para sempre o mundo do esporte de competição.

Amarrado por meio de entrevistas do próprio brasileiro, que parece narrar sua vida, coladas a cenas de corrida e dos bastidores da F1, o filme não é uma radiografia tola. Há nuances de cinza em Senna, especialmente quando ele trata de pôr Prost para fora da pista, no Grande Prêmio do Japão em 1990, como vingança do que ocorrera no ano anterior, de modo a garantir o título. Salta da tela sua liderança entre os pilotos, em imagens inéditas, quando reclama em uma reunião de Jean-Marie Balestre, o ranzinza e autocrático francês que dirigia a Federação Internacional de Automobislismo e nunca escondeu a predileção pelo conterrâneio Prost (e que em 1989 obrigou Senna a se retratar depois de ter ausado o cartola de má-fé ao puni-lo em decorrência de uma manobra arriscada). Há cores épicas ao tratar da vitório no GP do Brasil em 1991, quando o piloto rodou as derradeiras voltas apenas com a sexta marcha, porque o câmbio quebrara.

Senna é um belo documentário que foge da armadilha barata de mergulhar na vida pessoal do piloto, até porque seu cotidiano fora das pistas e longe da família era animado como um parafuso enferrujado. Atêm-se ao perfecionismo de uma homem que estudava o que fazia justamente porque sabia o risco da morte, sempre presente na Fórmula 1. Descobria erros de mecânica e aeroodinâmica, desafiava os computadores e os engenheiros e estava sempre certo. Foi traído pela fatalidade, pela impossibilidade de ter solda malfeita na barra de direção da Williams, a seta certeira de Páris guiada pelos deuses vingativos rumo ao calcanhar de aquiles. A barra se rompeu em Ímola, arremessou o carro de Senna contra o muro e parte dela trespassou o cérebro do piloto. Ayron Senna tinha 34 anos.